domingo, 23 de julho de 2017

Maciste no Inferno (Maciste all´inferno, Itália, 1962)


Uma mistura de horror gótico com herói justiceiro, numa aventura literalmente pelo inferno para salvar um vilarejo da maldição de uma bruxa

Maciste é um herói justiceiro similar ao popular Hércules, que defende os pobres, fracos e oprimidos contra as forças do mal. Extremamente forte e musculoso, ele é interpretado pelo ator italiano Adriano Bellini (creditado com o manjado pseudônimo americano Kirk Morris) em vários filmes com o mesmo personagem. Em “Maciste no Inferno” (Maciste all´inferno), produção italiana de 1962, sua aventura para salvar os aldeões de um pequeno vilarejo, livrando-os de uma maldição lançada por uma bruxa executada na fogueira, o leva literalmente para um passeio no inferno. Combatendo animais violentos como um leão, uma cobra enorme, uma águia carniceira e uma manada de bois ferozes, além de um homem gigante, em efeitos extremamente toscos e bizarros.
Com direção de Riccardo Freda (com o pseudônimo Robert Hampton), a história mistura elementos de horror gótico com filmes épicos de fantasia. Um jovem casal formado por Charley Law (Angelo Zanolli) e Martha Gaunt (Vira Silenti) muda-se para um castelo sinistro na Escócia, e são mal recebidos pelos aldeões do vilarejo próximo, que decidem hostilizá-la com tochas e ferramentas cortantes acusando-na de ser uma descendente de uma bruxa queimada na fogueira da inquisição em 1515, e que havia prometido vingança e maldição aos seus executores, sob o comando do juiz Edgar Parris (Andrea Bosic).  
Maciste aparece do nada e salva a mulher do linchamento, mas não consegue impedir que ela seja julgada por um tribunal inquisidor e condenada à morte na fogueira por suposta bruxaria. Para tentar impedir a execução, Maciste vai para o inferno em busca da bruxa. No caminho, enfrenta animais ferozes, encontra pessoas sofrendo torturas infindáveis de monstros e demônios, remove pedras gigantescas com as mãos, nunca usa armas e ao atravessar uma porta de fogo encontra uma bela e misteriosa mulher, Fania (Hélène Chanel), que tenta ajudá-lo em sua missão.
O filme desperta algum interesse em seu primeiro ato, ao explorar elementos sempre atraentes do horror gótico, com um castelo sombrio repleto de morcegos, aldeões supersticiosos e uma bruxa queimada na fogueira, amaldiçoando seus executores. Depois, quando surge o herói justiceiro sem camisa, com suas boas intenções de mocinho, numa improvável viagem ao inferno, a história mudou de rumo e inevitavelmente seguiu em direção ao tédio. Nem os efeitos toscos de um filme bagaceiro, nas lutas com animais falsos (ou grandes bichos de pelúcia), ou as pedras de isopor do inferno, conseguiram minimizar a sensação de sonolência no espectador. Seguem as palavras do próprio Maciste, que fala pouco e fica o tempo todo demonstrando ações de força bruta: “Meu destino é ajudar as pessoas que sofrem pela opressão e crueldade ao redor do mundo”. Dessa forma, os elementos de horror gótico do início do filme deram lugar para uma aventura simples e patética de um herói fazedor de justiça.
Entre as curiosidades, vale citar:
* enquanto Maciste está no inferno, temos várias cenas simulando imagens do passado, reproduzindo suas aventuras anteriores como uma luta contra um ciclope e contra um exército tirano chinês.
* Nos Estados Unidos o filme recebeu o título “The Witch´s Curse”.
* As cenas ambientadas no inferno foram filmadas numa região de cavernas na cidade italiana de Bari, e são bem interessantes, independente da história trivial do filme.
* Em 1961 teve outro filme italiano similar, “Hércules no Centro da Terra” (Hercules in the Haunted World), dirigido por Mario Bava e com Christopher Lee, sobre a aventura do fortão Hércules no submundo, um lugar que podemos chamar de inferno.
* Outros filmes do ator Kirk Morris creditado como Maciste: “O Triunfo de Maciste” (1961), “Hercules in the Valley of Woe” (1961), “Colossus and the Headhunters” (1963), “Atlas Against the Czar” (1964) e “Hércules, o Invencível” (1964).
(Juvenatrix – 23/07/17)


sábado, 22 de julho de 2017

A Luz e as Trevas

A Luz e a Trevas (Lest Darkness Fall), L. Sprague de Camp. Capa: A. Pedro. Tradução: Eurico Fonseca. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 361. 195 páginas, 1987.


L(yon) Sprague de Camp (1907-2000) é mais conhecido no Brasil por imaginar o nosso país como a principal potência espacial no futuro, na série Viagens Interplanetárias – com o título em português mesmo – e dois livros publicados aqui que englobam todos os oito contos da série: Os Dentes do Inspetor (The Continent Makers Other Tales of the Viagens) e Construtores de Continentes (The Continent Makers Other Tales of the Viagens). São os números 2 e 4 da Coleção Fantástica, da Francisco Alves Editora, lançados nos anos de 1976 e 1977 respectivamente, sob a edição de José Sanz.
Mas sua obra mais conhecida é Lest Darkness Fall. Publicada originalmente como uma noveleta na revista Unknown em dezembro de 1939, ganhou forma definitiva em 1941 quando foi expandido para um pequeno romance. Causou grande impacto nos anos 1940, e mesmo com o autor tendo uma carreira posterior longa e prolífica é a sua obra mais celebrada e republicada. Em 1989, por exemplo, apareceu na prestigiosa série “The Masterpieces of Science Fiction”, da The Easton Press.
Isso apesar de Lest Darkness Fall não ser uma história propriamente identificada com os temas mais comuns da época - a Golden Age -, como os impérios interestelares, contatos com alienígenas, robôs e cientistas loucos, pois trata, de um modo bem particular, do impacto do uso dos avanços tecnológicos nos valores e costumes de uma sociedade.
No na Roma do século VI, ano de 535, pouco tempo depois do Império do Ocidente ter caído e estar sob a posse dos godos – um dos povos identificados com os alemães contemporâneos. L. Sprague de Camp traça um amplo painel da vida desta época, mas a narrativa está longe de ser um relato mais calcado numa historiografia tradicional. Vejamos porque.
Martin Padway é um arqueólogo norte-americano em viagem de trabalho a Roma que, sob uma tempestade, de forma inexplicável recua 14 séculos no tempo. Seu amigo Tancredi há pouco lhe explicara uma teoria de que seria possível escorregar aos eventos passados, pois a História seria uma teia em quatro dimensões e que, em pontos fracos poderia haver uma conexão involuntária com outras épocas. Padway se mostra descrente de tal argumento, mas pouco depois de se despedir do amigo, se vê ele próprio como vítima desta teoria.
O que fazer na Roma do século VI? Foi um período de grande decadência e perda de relevância política, após o fim do Império ocidental e as invasões de vários povos bárbaros. Ele rapidamente procura por pessoas que possam ajudá-lo a sobreviver numa época completamente diferente da sua. Mas para Padway apenas em parte, já que ele, como estudioso de História, tinha sólidos conhecimentos sobre este período que antecede a Idade Média. Fala, inclusive, um pouco de latim, podendo, assim se comunicar com relativa habilidade. Conhece, entre outras pessoas, um banqueiro sírio que lhe empresta algum dinheiro para que possa se manter.
Embora seja um homem culto, Padway revela um talento incomum para a ação e o empreendimento. Sem nenhum pudor ou preocupação começa a introduzir mudanças na vida cotidiana, com a inclusão de novas tecnologias, da qual tira o seu sustento. De início com a destilação de bebidas, para depois ir mais além por meio de técnicas modernas de contabilidade, e os algarismos árabes. Com isso parte para suas criações mais ambiciosas: a construção de máquinas tipográficas – antecipando Gutemberg em cerca de 1000 anos –, o que lhe permite publicar um jornal semanal e, uma rede de comunicação por telégrafos, mas sem a eletricidade. Assim procurou difundir e democratizar o conhecimento e aperfeiçoar as comunicações a longas distâncias. De fato, duas das criações mais importantes para forjar uma civilização mais livre e integrada.
Como o próprio título sugere – A Fim de que Não Caiam as Trevas – Padway teve por objetivo, com suas inovações tecnológicas, evitar a queda do Ocidente nas assim chamadas trevas do obscurantismo medieval. É fato que tais mudanças sugerem fortemente que isto vá acontecer mas, penso que as decisões do arqueólogo se deram também num sentido mais pragmático, de alguém que buscou alternativas concretas e criativas para viver num mundo de costumes muito diferentes do dele. Mas em nenhum momento ele se pergunta se ao mudar o futuro ele mesmo não estaria com sua existência ameaçada.
Mais do que o tema em si e suas possíveis consequências o diferencial de A Luz e as Trevas é o texto ágil, além do tom coloquial e levemente humorístico. Martin Padway, neste novo século, é chamado de Martinus Paduei, e ganha a alcunha de “misterioso”, pois além de apresentar várias invenções aos italianos e godos, ainda demonstra prever o futuro, em algumas situações que lhe possa trazer vantagens imediatas. Como não poderia deixar de ser nesta época, é acusado de feitiçaria e preso, e só se livra dos possíveis destinos desta época, a excomunhão, as masmorras ou a fogueira, porque suborna um bispo influente.
Por tudo isso Martinus acaba sendo objeto de admiração e desconfiança, mas tem a prudência de cercar-se de algumas pessoas fiéis que estão sempre do seu lado, como o banqueiro Thomasus, o guarda pessoal Fritharik e o fazendeiro Nevitta. Devido ao seu gênio, Martinus prospera e por antever uma guerra dos godos com o Império Romano do Oriente, sob a liderança do imperador Justiniano, passa a agir politicamente para proteger seus negócios, tornando-se mesmo questor do titubiante rei godo de Roma, Thiudahad.
A narrativa é recheada de momentos inspirados e divertidos, personagens interessantes e espirituosos, e traz uma boa contextualização histórica dos valores e costumes da Itália do século seis. Todas estas virtudes tornam a leitura extremamente agradável, mostrando um autor seguro de sua prosa, na construção de personagens e timing para uma obra que, no fundo, não procura se levar muito a sério. Uma FC pulp da melhor qualidade.
Esta última característica, por sinal, ecoa muitas das histórias de FC dos anos 1930 e 1940, no qual o eixo condutor, por assim dizer, encontra-se na ação dos acontecimentos e não em possíveis reflexões dos acontecimentos em si. Isso, de certa forma, alivia um possível questionamento crítico que se poderia fazer a Martin, ou melhor, Martinus, já que ele conscientemente altera a História e não vê problema algum nisso – e sendo um arqueólogo! Chama a atenção de que em nenhum momento ele pensa em voltar ao século XX, se adaptando de forma resignada, mas não melancólica, em viver fora de sua época, não vendo mais suas pessoas queridas e compartilhando dos valores e costumes de sua época.
A Luz e as Trevas é uma FC histórica motivada pelo recurso da viagem no tempo, e tornou-se muito influente, tendo inspirado outras narrativas semelhantes e até continuações por outros autores. É mesmo considerada uma das precursoras contemporâneas do subgênero da História Alternativa, que viria a se desenvolver com vigor a partir da segunda metade do século XX. Além disso, o romance é também um representante do que de melhor a ficção pulp produziu nos anos 1930 e 1940, a despeito da pouca consideração que esta vertente literária tem até os dias de hoje. Isso porque, temos uma história inteligente, agradável e despojada, que faz deste livro um momento singular da ficção científica.


– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!
Cesar Silva

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)


O triunfo da Morte

O fã de cinema de horror que está procurando diversão escapista, barulheira, correrias desenfreadas, tiroteios, sustos fáceis, sangue em profusão, tripas expostas, monstros em CGI, não irá encontrar no filme “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night, 2017), que estreou em circuito comercial restrito nos cinemas brasileiros em 22/06/17, com cópias originais legendadas. Porém, quem aprecia e procura uma história tensa, com constante atmosfera sombria e perturbadora, carregada de paranoia, mistério, pessimismo, com narrativa mais cadenciada onde toda esperança está abandonada, num ambiente de grande pressão psicológica, além de um final depressivo, então esse é o filme indicado.
Com direção e roteiro de Trey Edward Shults, temos uma família morando isolada numa casa no meio da floresta, formada pelo pai protetor, Paul (o australiano Joel Edgerton), a esposa Sarah (a inglesa Carmen Ejogo), e o filho adolescente de 17 anos, Travis (Kelvin Harrison Jr.), que tem pesadelos terríveis frequentemente. O clima é de tensão constante, numa luta pela sobrevivência contra uma contaminação misteriosa que aparentemente mergulhou o mundo no caos. Eles precisam eliminar a ameaça que tomou o corpo do avô, Bud (David Pendleton), enterrado com o cadáver cheio de feridas pestilentas e carbonizado por segurança. Porém, as coisas se complicam mais ainda após a chegada de outra família pedindo refúgio, formada pelo jovem casal Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough), e o filho pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner).
Distanciando-se da fantasia tradicional do cinema, “Ao Cair da Noite” se aproxima mais de uma possível realidade com o mundo mergulhando numa contaminação devastadora não explicada, onde os sobreviventes precisam lutar ferozmente por suas vidas fragilizadas. Trazendo à tona seus instintos mais selvagens de sobrevivência, utilizando-se de violência e desconfiança para a autopreservação, eliminando gradativamente os sentimentos e emoções que caracterizam a humanidade, dando lugar à frieza e indiferença.  
Indo na contra mão do cinema que prioriza o entretenimento com pipoca e refrigerante, “Ao Cair da Noite” aposta no mistério, na falta de informação sobre os trágicos acontecimentos externos, no clima de tensão devido à luta selvagem pela sobrevivência, no desespero crescente do fim aparentemente inevitável da humanidade, dizimada por uma doença sem nome.
Após ver o filme e com o sentimento perturbador e desconfortável que invade o espectador, temos a sensação de que seriam pessoas de sorte todas aquelas que fossem carregadas pela Morte logo no início do apocalipse, caso um dia uma pandemia devastasse a Terra.
(Juvenatrix – 03/07/17)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Mortos Falam (The Devil Commands, EUA, 1941, PB)


Quando o diabo manda, Karloff obedece...!

O ícone do cinema de horror Boris Karloff (1887 / 1969) ficou eternizado na história por seu papel do “monstro de Frankenstein”. Mas, em sua carreira produtiva com mais de 200 créditos, também se destacam suas performances como o tradicional “cientista louco” que trabalha incansavelmente em descobertas científicas para o bem da humanidade, e que se sente incompreendido pela sociedade com suas criações transformando-se em tragédias. É o caso de “Os Mortos Falam”, filme do distante ano de 1941, dirigido por Edward Dmytryk, produzida pela “Columbia” com fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 65 minutos. Uma das taglines promocionais do filme (reproduzida acima) brinca com seu nome original “The Devil Commands” e o apelo comercial do nome de Boris Karloff como astro do Horror, imortalizado para sempre junto com Bela Lugosi, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee e outros.  

Karloff é o “cientista louco” Dr. Julian Blair, que faz experiências com ondas cerebrais humanas, e acredita que mesmo após a morte, elas continuam vivas e podem ter seus impulsos gravados numa máquina especial criada por ele, estabelecendo dessa forma um tipo de comunicação com os mortos (dessa ideia deve ter vindo a escolha do título nacional). Ele é auxiliado pelo também cientista Dr. Richard Sayles (Richard Fiske), e juntos trabalham num laboratório repleto de aparelhos elétricos enormes, com botões medidores e alavancas de acionamento para todos os lados. Porém, tudo começa a mudar para pior depois que a amável esposa do Dr. Blair, Helen (Shirley Warde), é vítima fatal de um bizarro acidente de carro nas proximidades do laboratório. Muito perturbado e desorientado por causa da morte repentina da esposa, e com seu trabalho científico desacreditado pelos colegas, o cientista decide se mudar para uma mansão isolada no alto de um penhasco na costa da Nova Inglaterra.
Nesse local sinistro, em meio a tempestades constantes, ele continua suas experiências macabras, influenciado por uma vidente de caráter duvidoso, Sra. Blanche Walters (Anne Revere), que tem interesses obscuros no sucesso dos testes com os cérebros humanos. Também conta com os serviços braçais de Karl (o ator Cy Schindell, creditado como Ralph Penney), um homem bruto e desajeitado que teve o cérebro torrado numa das experiências mal sucedidas do cientista.
Uma vez preocupada com o bem estar e ações misteriosas do pai, a jovem filha do cientista, Anne Blair (Amanda Duff), tenta localizá-lo com a ajuda do Dr. Sayles, para persuadi-lo a interromper seu trabalho suspeito. Enquanto paralelamente o xerife local, Ed Willis (Kenneth MacDonald), está investigando o desaparecimento de cadáveres do cemitério próximo ao laboratório do Dr. Blair, desconfiado de alguma conexão com as bizarras experiências do cientista, cada vez mais temido e indesejável pelos moradores do vilarejo vizinho da mansão.

“Este mago louco mata à vontade a serviço de Satã!” – uma das taglines promocionais do filme

“Os Mortos Falam” é mais uma bagaceira divertida que pertence ao sub-gênero “cientista louco”, com a participação do lendário Boris Karloff, motivo mais que suficiente para o filme se destacar entre a incontável quantidade de produções similares. Temos todos os principais elementos característicos como o laboratório científico exagerado, muito bizarro para a época (quase 80 anos atrás), a mansão no alto de um penhasco à beira do mar, um ambiente extremamente sinistro e apropriado para uma história de horror, e o cientista com boas intenções que foi vítima de uma tragédia pessoal, sendo corrompido pela descrença e obcecado por um objetivo científico com resultados catastróficos. Suas ações suspeitas, resultado da obsessão em se comunicar com a esposa falecida, despertaram a desconfiança das autoridades e a ira cega dos vizinhos, que por temerem o desconhecido, desejavam sua destruição.
O maior destaque, além da atuação convincente de Boris Karloff como o cientista de boas intenções distorcido para “louco”, são as cenas das experiências com os mortos, vestindo armaduras de aço parecidas com trajes espaciais toscos, com seus cérebros conectados uns aos outros, simulando uma única grande rede de ondas cerebrais. Remetendo-nos totalmente ao cinema fantástico bagaceiro, onde o horror e a ficção científica caminham juntos para um resultado bizarro de puro entretenimento.  

“Se a Ciência puder abrir a mente humana, poderá descobrir os segredos de cada cérebro humano.” – Dr. Julian Blair

(Juvenatrix – 26/06/17)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Objetos turbulentos, José J. Veiga

Objetos turbulentos: Contos para ler à luz do dia, José J. Veiga, 157 páginas, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997.

Obra derradeira do mestre da fantasia brasileira José J. Veiga (1915-1999), a coletânea Objetos turbulentos traz uma estrutura de tal modo coerente que é quase certo que foi, desde o começo, planejada para ser publicada e lida em bloco. São onze textos independentes entre si, mas solidamente amarrados, que revelam mistérios por trás de objetos comuns do cotidiano que, por alguma circunstância bizarra, assumem contornos quase sobrenaturais, muitas vezes levando tragédia a seus proprietários.
"Espelho" é um dos textos mais perturbadores do volume, embora o desdobramento da trama não leve a um destino especialmente nefasto. Casal é enfeitiçado por um espelho antigo adquirido em um antiquário. O tema não é novo e já apareceu mais de uma vez na literatura brasileira, mas ganha aqui um contorno naturalista.
"Cachimbo" também é um texto forte sobre o preconceito nosso de cada dia. Um negro, operador da bolsa de valores, tem uma vida boa e tranquila até que decide começar a fumar cachimbo, até que, apesar de suas convicções, decide pitar em público.
"Cadeira" traz um objeto assombrado para a vida de um decorador que por ela se apaixona. A piedade de seu proprietário original, um famoso bispo, influencia quem, nela se acomoda a ter crises profundas de tristeza e culpa.
"Manuscrito perdido" é o texto mais divertido do conjunto. Um escritor entra em crise criativa depois de perder, durante uma viagem, o manuscrito de um conto que ele avaliava como sua obra prima. Três anos depois, para sua alegria e desespero, o manuscrito retorna às suas mãos.
Em "Vestido de fustão", um vendedor de tapetes, ao visitar uma cliente, tem uma epifania ao cruzar com uma jovem desconhecida na escadaria do condomínio. Tenta, então, reencontrar a garota que parece não existir de fato.
"Caderno de endereços" narra a tragédia de um jovem estudante apaixonado pela Alemanha que, depois de muito preparo finalmente tem a chance de realizar o sonho de visitar o país. Porém, um prosaico e inocente caderno de endereços vai se tornar um grande problema quando ele chama a atenção do governo nazista.
"Cantilever" conta a história de um menino muito criativo e irrequieto, que tem a mania de inventar palavras.
Em "Luneta" um jovem fotógrafo torna-se voyeur ao se deparar com uma luneta de alta performance. Mas o que ele vai entender é que, quando olhamos muito para dentro da escuridão, a escuridão também olha dentro da gente...
"Tapete florido" é outro conto sobre um objeto enfeitiçado. Esposa, depois de muito insistir, finalmente consegue que o marido compre um tapete novo para a sala de visitas. Mas apesar de muito belo, a estampa do objeto tem o poder de levar a mulher a um estado alterado de consciência, no qual ela tem percepções do passado e do futuro, e sofrer de profunda melancolia. Este conto também dialoga com uma série de outros da nossa literatura, como o famoso "A caçada", de Liga Fagundes Telles.
"Pasta de couro de búfalo" mostra a ascensão de um jovem empresário que enriquece graças ao tino comercial inato. Mas, ao se envolver com uma famosa cantora de ópera, sua credulidade nos poderes de sua pasta de couro entra em choque com a paixão pela dama, levando-o a um destino trágico.
"Cinzeiro", que fecha a edição, também tem um viés cômico. Mostra como um jovem e destemido membro da brigada revolucionária gaúcha que acompanhou Getúlio Vargas ao Rio de Janeiro, constrói sua rede de influência na capital. De um de seus contatos, ganha um cinzeiro feito de uma granada desativada, pelo qual se apaixonou de imediato, pois era perfeito para acompanhá-lo em seus longos períodos de leitura de romances policiais e consumo de charutos. Mas o objeto trazia em si um risco inesperado.
Os contos são leves e, mesmo os mais trágicos, não chegam ao horror. A leitura sobrenatural, apesar de possível, é imprecisa, podendo ser percebida mais como fenômeno psicológico, como nos contos "Espelho", "Cadeira" e "Tapete florido". Temas recorrentes do autor aparecem aqui diluídos no tratamento leve e realista, sem o perfil de pesadelo e violência que aparecem em seus textos mais antigos, exceto por "Cachimbo" que, mesmo assim, não chega estabelecer um mistério inexplicável. Os cenários geralmente campestres e interioranos de Os Cavalinhos de Platiplanto e A estranha máquina extraviada também cedem lugar a ambientes cosmopolitas, nos quais os objetos adquirem mais relevância que os próprios personagens.
Objetos turbulentos é, portanto, um livro diferenciado, ainda que mantenha a poderosa carga psicológica característica da obra do mestre.
Cesar Silva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Bebê Maldito II (The Unborn II, EUA, 1994)


Criado da ciência. Vazio de alma. Nascido para comandar
– tagline promocional do segundo filme do bebê maldito

Lançado em VHS no Brasil pela “California” e com produção do “Rei dos Filmes B” Roger Corman, “O Bebê Maldito II” (The Unborn II, 1994) é o típico exemplo do cinema bagaceiro de horror dos anos 90 do século passado, com história tranqueira onde o destaque é o bebê do título, deformado e assassino, um boneco animatrônico que diverte justamente por ser extremamente tosco.
A direção é de Rick Jacobson e a história sucede um original lançado em 1991. Dessa vez, acompanhamos os passos de uma misteriosa mulher, Linda Holt (Robin Curtis), que possui uma lista com vários nomes de crianças, as quais são procuradas por ela e brutalmente assassinadas quando localizadas. Em seu rastro temos um detetive da polícia incompetente, Tenente Briggs (Leonard O. Turner), que não consegue impedir as ações violentas da mulher, mesmo matando crianças em locais improváveis como um parque movimentado e ensolarado, ou dentro de um berçário numa maternidade.
Uma das crianças procuradas é Joey, um bebê de seis meses cabeçudo e deformado, que está sendo protegido pela mãe, Catherine Moore (Michele Greene), uma escritora de livros infantis que está sempre se mudando de casa e escondendo o filho esquisito de todos a sua volta. O que não impede de ter que enfrentar uma dupla de assistentes sociais que querem investigar sua conduta como mãe, depois de uma denúncia de mais tratos dos novos vizinhos intrometidos, Artie e Marge Philips (Darryl Henriques e Caroline White, respectivamente), pais da adolescente Sally Anne (a alemã Brittney Powell). Para ajudá-la a esconder o bebê maldito, surge um misterioso homem inicialmente amigável, John Edson (Scott Valentine), que tem objetivos sinistros e é a principal ligação com o filme original. 
A história não é original, lembrando elementos de outra franquia, “Nasce Um Monstro” (It´s Alive), que teve 3 filmes. Não desperta muita atenção e têm diversas situações exageradas, principalmente os tiroteios intermináveis e barulhentos, que não soam convincentes. O que realmente vale a pena no filme é o bebê maldito em cena, tosco ao extremo, que come carne crua e arranca pedaços de suas vítimas com os dentes afiados, além dos grunhidos animalescos para se comunicar. Ele é o resultado de testes genéticos de fertilização mal sucedidos, os quais geraram crianças demoníacas, deformadas e agressivas, que ainda tem o poder de controlar a mente das pessoas para seu benefício (reforçando a ideia da tagline promocional reproduzida no início do texto). Tudo obra de um “cientista louco”, Dr. Richard Meyerling, do original, e que é citado rapidamente nessa continuação para reforçar a conexão entre os filmes.
O desfecho em aberto, como sempre acontece nas franquias intermináveis em busca de lucros, mesmo que pequenos, possibilita uma eventual sequência, um truque comum dos produtores caso decidam a viabilidade de continuar a história. Porém, isso não aconteceu, e o bebê maldito parou nessa segunda parte.   
(Juvenatrix – 22/06/17)