domingo, 23 de julho de 2017

Maciste no Inferno (Maciste all´inferno, Itália, 1962)


Uma mistura de horror gótico com herói justiceiro, numa aventura literalmente pelo inferno para salvar um vilarejo da maldição de uma bruxa

Maciste é um herói justiceiro similar ao popular Hércules, que defende os pobres, fracos e oprimidos contra as forças do mal. Extremamente forte e musculoso, ele é interpretado pelo ator italiano Adriano Bellini (creditado com o manjado pseudônimo americano Kirk Morris) em vários filmes com o mesmo personagem. Em “Maciste no Inferno” (Maciste all´inferno), produção italiana de 1962, sua aventura para salvar os aldeões de um pequeno vilarejo, livrando-os de uma maldição lançada por uma bruxa executada na fogueira, o leva literalmente para um passeio no inferno. Combatendo animais violentos como um leão, uma cobra enorme, uma águia carniceira e uma manada de bois ferozes, além de um homem gigante, em efeitos extremamente toscos e bizarros.
Com direção de Riccardo Freda (com o pseudônimo Robert Hampton), a história mistura elementos de horror gótico com filmes épicos de fantasia. Um jovem casal formado por Charley Law (Angelo Zanolli) e Martha Gaunt (Vira Silenti) muda-se para um castelo sinistro na Escócia, e são mal recebidos pelos aldeões do vilarejo próximo, que decidem hostilizá-la com tochas e ferramentas cortantes acusando-na de ser uma descendente de uma bruxa queimada na fogueira da inquisição em 1515, e que havia prometido vingança e maldição aos seus executores, sob o comando do juiz Edgar Parris (Andrea Bosic).  
Maciste aparece do nada e salva a mulher do linchamento, mas não consegue impedir que ela seja julgada por um tribunal inquisidor e condenada à morte na fogueira por suposta bruxaria. Para tentar impedir a execução, Maciste vai para o inferno em busca da bruxa. No caminho, enfrenta animais ferozes, encontra pessoas sofrendo torturas infindáveis de monstros e demônios, remove pedras gigantescas com as mãos, nunca usa armas e ao atravessar uma porta de fogo encontra uma bela e misteriosa mulher, Fania (Hélène Chanel), que tenta ajudá-lo em sua missão.
O filme desperta algum interesse em seu primeiro ato, ao explorar elementos sempre atraentes do horror gótico, com um castelo sombrio repleto de morcegos, aldeões supersticiosos e uma bruxa queimada na fogueira, amaldiçoando seus executores. Depois, quando surge o herói justiceiro sem camisa, com suas boas intenções de mocinho, numa improvável viagem ao inferno, a história mudou de rumo e inevitavelmente seguiu em direção ao tédio. Nem os efeitos toscos de um filme bagaceiro, nas lutas com animais falsos (ou grandes bichos de pelúcia), ou as pedras de isopor do inferno, conseguiram minimizar a sensação de sonolência no espectador. Seguem as palavras do próprio Maciste, que fala pouco e fica o tempo todo demonstrando ações de força bruta: “Meu destino é ajudar as pessoas que sofrem pela opressão e crueldade ao redor do mundo”. Dessa forma, os elementos de horror gótico do início do filme deram lugar para uma aventura simples e patética de um herói fazedor de justiça.
Entre as curiosidades, vale citar:
* enquanto Maciste está no inferno, temos várias cenas simulando imagens do passado, reproduzindo suas aventuras anteriores como uma luta contra um ciclope e contra um exército tirano chinês.
* Nos Estados Unidos o filme recebeu o título “The Witch´s Curse”.
* As cenas ambientadas no inferno foram filmadas numa região de cavernas na cidade italiana de Bari, e são bem interessantes, independente da história trivial do filme.
* Em 1961 teve outro filme italiano similar, “Hércules no Centro da Terra” (Hercules in the Haunted World), dirigido por Mario Bava e com Christopher Lee, sobre a aventura do fortão Hércules no submundo, um lugar que podemos chamar de inferno.
* Outros filmes do ator Kirk Morris creditado como Maciste: “O Triunfo de Maciste” (1961), “Hercules in the Valley of Woe” (1961), “Colossus and the Headhunters” (1963), “Atlas Against the Czar” (1964) e “Hércules, o Invencível” (1964).
(Juvenatrix – 23/07/17)


sábado, 22 de julho de 2017

A Luz e as Trevas

A Luz e a Trevas (Lest Darkness Fall), L. Sprague de Camp. Capa: A. Pedro. Tradução: Eurico Fonseca. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 361. 195 páginas, 1987.


L(yon) Sprague de Camp (1907-2000) é mais conhecido no Brasil por imaginar o nosso país como a principal potência espacial no futuro, na série Viagens Interplanetárias – com o título em português mesmo – e dois livros publicados aqui que englobam todos os oito contos da série: Os Dentes do Inspetor (The Continent Makers Other Tales of the Viagens) e Construtores de Continentes (The Continent Makers Other Tales of the Viagens). São os números 2 e 4 da Coleção Fantástica, da Francisco Alves Editora, lançados nos anos de 1976 e 1977 respectivamente, sob a edição de José Sanz.
Mas sua obra mais conhecida é Lest Darkness Fall. Publicada originalmente como uma noveleta na revista Unknown em dezembro de 1939, ganhou forma definitiva em 1941 quando foi expandido para um pequeno romance. Causou grande impacto nos anos 1940, e mesmo com o autor tendo uma carreira posterior longa e prolífica é a sua obra mais celebrada e republicada. Em 1989, por exemplo, apareceu na prestigiosa série “The Masterpieces of Science Fiction”, da The Easton Press.
Isso apesar de Lest Darkness Fall não ser uma história propriamente identificada com os temas mais comuns da época - a Golden Age -, como os impérios interestelares, contatos com alienígenas, robôs e cientistas loucos, pois trata, de um modo bem particular, do impacto do uso dos avanços tecnológicos nos valores e costumes de uma sociedade.
No na Roma do século VI, ano de 535, pouco tempo depois do Império do Ocidente ter caído e estar sob a posse dos godos – um dos povos identificados com os alemães contemporâneos. L. Sprague de Camp traça um amplo painel da vida desta época, mas a narrativa está longe de ser um relato mais calcado numa historiografia tradicional. Vejamos porque.
Martin Padway é um arqueólogo norte-americano em viagem de trabalho a Roma que, sob uma tempestade, de forma inexplicável recua 14 séculos no tempo. Seu amigo Tancredi há pouco lhe explicara uma teoria de que seria possível escorregar aos eventos passados, pois a História seria uma teia em quatro dimensões e que, em pontos fracos poderia haver uma conexão involuntária com outras épocas. Padway se mostra descrente de tal argumento, mas pouco depois de se despedir do amigo, se vê ele próprio como vítima desta teoria.
O que fazer na Roma do século VI? Foi um período de grande decadência e perda de relevância política, após o fim do Império ocidental e as invasões de vários povos bárbaros. Ele rapidamente procura por pessoas que possam ajudá-lo a sobreviver numa época completamente diferente da sua. Mas para Padway apenas em parte, já que ele, como estudioso de História, tinha sólidos conhecimentos sobre este período que antecede a Idade Média. Fala, inclusive, um pouco de latim, podendo, assim se comunicar com relativa habilidade. Conhece, entre outras pessoas, um banqueiro sírio que lhe empresta algum dinheiro para que possa se manter.
Embora seja um homem culto, Padway revela um talento incomum para a ação e o empreendimento. Sem nenhum pudor ou preocupação começa a introduzir mudanças na vida cotidiana, com a inclusão de novas tecnologias, da qual tira o seu sustento. De início com a destilação de bebidas, para depois ir mais além por meio de técnicas modernas de contabilidade, e os algarismos árabes. Com isso parte para suas criações mais ambiciosas: a construção de máquinas tipográficas – antecipando Gutemberg em cerca de 1000 anos –, o que lhe permite publicar um jornal semanal e, uma rede de comunicação por telégrafos, mas sem a eletricidade. Assim procurou difundir e democratizar o conhecimento e aperfeiçoar as comunicações a longas distâncias. De fato, duas das criações mais importantes para forjar uma civilização mais livre e integrada.
Como o próprio título sugere – A Fim de que Não Caiam as Trevas – Padway teve por objetivo, com suas inovações tecnológicas, evitar a queda do Ocidente nas assim chamadas trevas do obscurantismo medieval. É fato que tais mudanças sugerem fortemente que isto vá acontecer mas, penso que as decisões do arqueólogo se deram também num sentido mais pragmático, de alguém que buscou alternativas concretas e criativas para viver num mundo de costumes muito diferentes do dele. Mas em nenhum momento ele se pergunta se ao mudar o futuro ele mesmo não estaria com sua existência ameaçada.
Mais do que o tema em si e suas possíveis consequências o diferencial de A Luz e as Trevas é o texto ágil, além do tom coloquial e levemente humorístico. Martin Padway, neste novo século, é chamado de Martinus Paduei, e ganha a alcunha de “misterioso”, pois além de apresentar várias invenções aos italianos e godos, ainda demonstra prever o futuro, em algumas situações que lhe possa trazer vantagens imediatas. Como não poderia deixar de ser nesta época, é acusado de feitiçaria e preso, e só se livra dos possíveis destinos desta época, a excomunhão, as masmorras ou a fogueira, porque suborna um bispo influente.
Por tudo isso Martinus acaba sendo objeto de admiração e desconfiança, mas tem a prudência de cercar-se de algumas pessoas fiéis que estão sempre do seu lado, como o banqueiro Thomasus, o guarda pessoal Fritharik e o fazendeiro Nevitta. Devido ao seu gênio, Martinus prospera e por antever uma guerra dos godos com o Império Romano do Oriente, sob a liderança do imperador Justiniano, passa a agir politicamente para proteger seus negócios, tornando-se mesmo questor do titubiante rei godo de Roma, Thiudahad.
A narrativa é recheada de momentos inspirados e divertidos, personagens interessantes e espirituosos, e traz uma boa contextualização histórica dos valores e costumes da Itália do século seis. Todas estas virtudes tornam a leitura extremamente agradável, mostrando um autor seguro de sua prosa, na construção de personagens e timing para uma obra que, no fundo, não procura se levar muito a sério. Uma FC pulp da melhor qualidade.
Esta última característica, por sinal, ecoa muitas das histórias de FC dos anos 1930 e 1940, no qual o eixo condutor, por assim dizer, encontra-se na ação dos acontecimentos e não em possíveis reflexões dos acontecimentos em si. Isso, de certa forma, alivia um possível questionamento crítico que se poderia fazer a Martin, ou melhor, Martinus, já que ele conscientemente altera a História e não vê problema algum nisso – e sendo um arqueólogo! Chama a atenção de que em nenhum momento ele pensa em voltar ao século XX, se adaptando de forma resignada, mas não melancólica, em viver fora de sua época, não vendo mais suas pessoas queridas e compartilhando dos valores e costumes de sua época.
A Luz e as Trevas é uma FC histórica motivada pelo recurso da viagem no tempo, e tornou-se muito influente, tendo inspirado outras narrativas semelhantes e até continuações por outros autores. É mesmo considerada uma das precursoras contemporâneas do subgênero da História Alternativa, que viria a se desenvolver com vigor a partir da segunda metade do século XX. Além disso, o romance é também um representante do que de melhor a ficção pulp produziu nos anos 1930 e 1940, a despeito da pouca consideração que esta vertente literária tem até os dias de hoje. Isso porque, temos uma história inteligente, agradável e despojada, que faz deste livro um momento singular da ficção científica.


– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!
Cesar Silva

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)


O triunfo da Morte

O fã de cinema de horror que está procurando diversão escapista, barulheira, correrias desenfreadas, tiroteios, sustos fáceis, sangue em profusão, tripas expostas, monstros em CGI, não irá encontrar no filme “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night, 2017), que estreou em circuito comercial restrito nos cinemas brasileiros em 22/06/17, com cópias originais legendadas. Porém, quem aprecia e procura uma história tensa, com constante atmosfera sombria e perturbadora, carregada de paranoia, mistério, pessimismo, com narrativa mais cadenciada onde toda esperança está abandonada, num ambiente de grande pressão psicológica, além de um final depressivo, então esse é o filme indicado.
Com direção e roteiro de Trey Edward Shults, temos uma família morando isolada numa casa no meio da floresta, formada pelo pai protetor, Paul (o australiano Joel Edgerton), a esposa Sarah (a inglesa Carmen Ejogo), e o filho adolescente de 17 anos, Travis (Kelvin Harrison Jr.), que tem pesadelos terríveis frequentemente. O clima é de tensão constante, numa luta pela sobrevivência contra uma contaminação misteriosa que aparentemente mergulhou o mundo no caos. Eles precisam eliminar a ameaça que tomou o corpo do avô, Bud (David Pendleton), enterrado com o cadáver cheio de feridas pestilentas e carbonizado por segurança. Porém, as coisas se complicam mais ainda após a chegada de outra família pedindo refúgio, formada pelo jovem casal Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough), e o filho pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner).
Distanciando-se da fantasia tradicional do cinema, “Ao Cair da Noite” se aproxima mais de uma possível realidade com o mundo mergulhando numa contaminação devastadora não explicada, onde os sobreviventes precisam lutar ferozmente por suas vidas fragilizadas. Trazendo à tona seus instintos mais selvagens de sobrevivência, utilizando-se de violência e desconfiança para a autopreservação, eliminando gradativamente os sentimentos e emoções que caracterizam a humanidade, dando lugar à frieza e indiferença.  
Indo na contra mão do cinema que prioriza o entretenimento com pipoca e refrigerante, “Ao Cair da Noite” aposta no mistério, na falta de informação sobre os trágicos acontecimentos externos, no clima de tensão devido à luta selvagem pela sobrevivência, no desespero crescente do fim aparentemente inevitável da humanidade, dizimada por uma doença sem nome.
Após ver o filme e com o sentimento perturbador e desconfortável que invade o espectador, temos a sensação de que seriam pessoas de sorte todas aquelas que fossem carregadas pela Morte logo no início do apocalipse, caso um dia uma pandemia devastasse a Terra.
(Juvenatrix – 03/07/17)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Mortos Falam (The Devil Commands, EUA, 1941, PB)


Quando o diabo manda, Karloff obedece...!

O ícone do cinema de horror Boris Karloff (1887 / 1969) ficou eternizado na história por seu papel do “monstro de Frankenstein”. Mas, em sua carreira produtiva com mais de 200 créditos, também se destacam suas performances como o tradicional “cientista louco” que trabalha incansavelmente em descobertas científicas para o bem da humanidade, e que se sente incompreendido pela sociedade com suas criações transformando-se em tragédias. É o caso de “Os Mortos Falam”, filme do distante ano de 1941, dirigido por Edward Dmytryk, produzida pela “Columbia” com fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 65 minutos. Uma das taglines promocionais do filme (reproduzida acima) brinca com seu nome original “The Devil Commands” e o apelo comercial do nome de Boris Karloff como astro do Horror, imortalizado para sempre junto com Bela Lugosi, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee e outros.  

Karloff é o “cientista louco” Dr. Julian Blair, que faz experiências com ondas cerebrais humanas, e acredita que mesmo após a morte, elas continuam vivas e podem ter seus impulsos gravados numa máquina especial criada por ele, estabelecendo dessa forma um tipo de comunicação com os mortos (dessa ideia deve ter vindo a escolha do título nacional). Ele é auxiliado pelo também cientista Dr. Richard Sayles (Richard Fiske), e juntos trabalham num laboratório repleto de aparelhos elétricos enormes, com botões medidores e alavancas de acionamento para todos os lados. Porém, tudo começa a mudar para pior depois que a amável esposa do Dr. Blair, Helen (Shirley Warde), é vítima fatal de um bizarro acidente de carro nas proximidades do laboratório. Muito perturbado e desorientado por causa da morte repentina da esposa, e com seu trabalho científico desacreditado pelos colegas, o cientista decide se mudar para uma mansão isolada no alto de um penhasco na costa da Nova Inglaterra.
Nesse local sinistro, em meio a tempestades constantes, ele continua suas experiências macabras, influenciado por uma vidente de caráter duvidoso, Sra. Blanche Walters (Anne Revere), que tem interesses obscuros no sucesso dos testes com os cérebros humanos. Também conta com os serviços braçais de Karl (o ator Cy Schindell, creditado como Ralph Penney), um homem bruto e desajeitado que teve o cérebro torrado numa das experiências mal sucedidas do cientista.
Uma vez preocupada com o bem estar e ações misteriosas do pai, a jovem filha do cientista, Anne Blair (Amanda Duff), tenta localizá-lo com a ajuda do Dr. Sayles, para persuadi-lo a interromper seu trabalho suspeito. Enquanto paralelamente o xerife local, Ed Willis (Kenneth MacDonald), está investigando o desaparecimento de cadáveres do cemitério próximo ao laboratório do Dr. Blair, desconfiado de alguma conexão com as bizarras experiências do cientista, cada vez mais temido e indesejável pelos moradores do vilarejo vizinho da mansão.

“Este mago louco mata à vontade a serviço de Satã!” – uma das taglines promocionais do filme

“Os Mortos Falam” é mais uma bagaceira divertida que pertence ao sub-gênero “cientista louco”, com a participação do lendário Boris Karloff, motivo mais que suficiente para o filme se destacar entre a incontável quantidade de produções similares. Temos todos os principais elementos característicos como o laboratório científico exagerado, muito bizarro para a época (quase 80 anos atrás), a mansão no alto de um penhasco à beira do mar, um ambiente extremamente sinistro e apropriado para uma história de horror, e o cientista com boas intenções que foi vítima de uma tragédia pessoal, sendo corrompido pela descrença e obcecado por um objetivo científico com resultados catastróficos. Suas ações suspeitas, resultado da obsessão em se comunicar com a esposa falecida, despertaram a desconfiança das autoridades e a ira cega dos vizinhos, que por temerem o desconhecido, desejavam sua destruição.
O maior destaque, além da atuação convincente de Boris Karloff como o cientista de boas intenções distorcido para “louco”, são as cenas das experiências com os mortos, vestindo armaduras de aço parecidas com trajes espaciais toscos, com seus cérebros conectados uns aos outros, simulando uma única grande rede de ondas cerebrais. Remetendo-nos totalmente ao cinema fantástico bagaceiro, onde o horror e a ficção científica caminham juntos para um resultado bizarro de puro entretenimento.  

“Se a Ciência puder abrir a mente humana, poderá descobrir os segredos de cada cérebro humano.” – Dr. Julian Blair

(Juvenatrix – 26/06/17)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Objetos turbulentos, José J. Veiga

Objetos turbulentos: Contos para ler à luz do dia, José J. Veiga, 157 páginas, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997.

Obra derradeira do mestre da fantasia brasileira José J. Veiga (1915-1999), a coletânea Objetos turbulentos traz uma estrutura de tal modo coerente que é quase certo que foi, desde o começo, planejada para ser publicada e lida em bloco. São onze textos independentes entre si, mas solidamente amarrados, que revelam mistérios por trás de objetos comuns do cotidiano que, por alguma circunstância bizarra, assumem contornos quase sobrenaturais, muitas vezes levando tragédia a seus proprietários.
"Espelho" é um dos textos mais perturbadores do volume, embora o desdobramento da trama não leve a um destino especialmente nefasto. Casal é enfeitiçado por um espelho antigo adquirido em um antiquário. O tema não é novo e já apareceu mais de uma vez na literatura brasileira, mas ganha aqui um contorno naturalista.
"Cachimbo" também é um texto forte sobre o preconceito nosso de cada dia. Um negro, operador da bolsa de valores, tem uma vida boa e tranquila até que decide começar a fumar cachimbo, até que, apesar de suas convicções, decide pitar em público.
"Cadeira" traz um objeto assombrado para a vida de um decorador que por ela se apaixona. A piedade de seu proprietário original, um famoso bispo, influencia quem, nela se acomoda a ter crises profundas de tristeza e culpa.
"Manuscrito perdido" é o texto mais divertido do conjunto. Um escritor entra em crise criativa depois de perder, durante uma viagem, o manuscrito de um conto que ele avaliava como sua obra prima. Três anos depois, para sua alegria e desespero, o manuscrito retorna às suas mãos.
Em "Vestido de fustão", um vendedor de tapetes, ao visitar uma cliente, tem uma epifania ao cruzar com uma jovem desconhecida na escadaria do condomínio. Tenta, então, reencontrar a garota que parece não existir de fato.
"Caderno de endereços" narra a tragédia de um jovem estudante apaixonado pela Alemanha que, depois de muito preparo finalmente tem a chance de realizar o sonho de visitar o país. Porém, um prosaico e inocente caderno de endereços vai se tornar um grande problema quando ele chama a atenção do governo nazista.
"Cantilever" conta a história de um menino muito criativo e irrequieto, que tem a mania de inventar palavras.
Em "Luneta" um jovem fotógrafo torna-se voyeur ao se deparar com uma luneta de alta performance. Mas o que ele vai entender é que, quando olhamos muito para dentro da escuridão, a escuridão também olha dentro da gente...
"Tapete florido" é outro conto sobre um objeto enfeitiçado. Esposa, depois de muito insistir, finalmente consegue que o marido compre um tapete novo para a sala de visitas. Mas apesar de muito belo, a estampa do objeto tem o poder de levar a mulher a um estado alterado de consciência, no qual ela tem percepções do passado e do futuro, e sofrer de profunda melancolia. Este conto também dialoga com uma série de outros da nossa literatura, como o famoso "A caçada", de Liga Fagundes Telles.
"Pasta de couro de búfalo" mostra a ascensão de um jovem empresário que enriquece graças ao tino comercial inato. Mas, ao se envolver com uma famosa cantora de ópera, sua credulidade nos poderes de sua pasta de couro entra em choque com a paixão pela dama, levando-o a um destino trágico.
"Cinzeiro", que fecha a edição, também tem um viés cômico. Mostra como um jovem e destemido membro da brigada revolucionária gaúcha que acompanhou Getúlio Vargas ao Rio de Janeiro, constrói sua rede de influência na capital. De um de seus contatos, ganha um cinzeiro feito de uma granada desativada, pelo qual se apaixonou de imediato, pois era perfeito para acompanhá-lo em seus longos períodos de leitura de romances policiais e consumo de charutos. Mas o objeto trazia em si um risco inesperado.
Os contos são leves e, mesmo os mais trágicos, não chegam ao horror. A leitura sobrenatural, apesar de possível, é imprecisa, podendo ser percebida mais como fenômeno psicológico, como nos contos "Espelho", "Cadeira" e "Tapete florido". Temas recorrentes do autor aparecem aqui diluídos no tratamento leve e realista, sem o perfil de pesadelo e violência que aparecem em seus textos mais antigos, exceto por "Cachimbo" que, mesmo assim, não chega estabelecer um mistério inexplicável. Os cenários geralmente campestres e interioranos de Os Cavalinhos de Platiplanto e A estranha máquina extraviada também cedem lugar a ambientes cosmopolitas, nos quais os objetos adquirem mais relevância que os próprios personagens.
Objetos turbulentos é, portanto, um livro diferenciado, ainda que mantenha a poderosa carga psicológica característica da obra do mestre.
Cesar Silva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Bebê Maldito II (The Unborn II, EUA, 1994)


Criado da ciência. Vazio de alma. Nascido para comandar
– tagline promocional do segundo filme do bebê maldito

Lançado em VHS no Brasil pela “California” e com produção do “Rei dos Filmes B” Roger Corman, “O Bebê Maldito II” (The Unborn II, 1994) é o típico exemplo do cinema bagaceiro de horror dos anos 90 do século passado, com história tranqueira onde o destaque é o bebê do título, deformado e assassino, um boneco animatrônico que diverte justamente por ser extremamente tosco.
A direção é de Rick Jacobson e a história sucede um original lançado em 1991. Dessa vez, acompanhamos os passos de uma misteriosa mulher, Linda Holt (Robin Curtis), que possui uma lista com vários nomes de crianças, as quais são procuradas por ela e brutalmente assassinadas quando localizadas. Em seu rastro temos um detetive da polícia incompetente, Tenente Briggs (Leonard O. Turner), que não consegue impedir as ações violentas da mulher, mesmo matando crianças em locais improváveis como um parque movimentado e ensolarado, ou dentro de um berçário numa maternidade.
Uma das crianças procuradas é Joey, um bebê de seis meses cabeçudo e deformado, que está sendo protegido pela mãe, Catherine Moore (Michele Greene), uma escritora de livros infantis que está sempre se mudando de casa e escondendo o filho esquisito de todos a sua volta. O que não impede de ter que enfrentar uma dupla de assistentes sociais que querem investigar sua conduta como mãe, depois de uma denúncia de mais tratos dos novos vizinhos intrometidos, Artie e Marge Philips (Darryl Henriques e Caroline White, respectivamente), pais da adolescente Sally Anne (a alemã Brittney Powell). Para ajudá-la a esconder o bebê maldito, surge um misterioso homem inicialmente amigável, John Edson (Scott Valentine), que tem objetivos sinistros e é a principal ligação com o filme original. 
A história não é original, lembrando elementos de outra franquia, “Nasce Um Monstro” (It´s Alive), que teve 3 filmes. Não desperta muita atenção e têm diversas situações exageradas, principalmente os tiroteios intermináveis e barulhentos, que não soam convincentes. O que realmente vale a pena no filme é o bebê maldito em cena, tosco ao extremo, que come carne crua e arranca pedaços de suas vítimas com os dentes afiados, além dos grunhidos animalescos para se comunicar. Ele é o resultado de testes genéticos de fertilização mal sucedidos, os quais geraram crianças demoníacas, deformadas e agressivas, que ainda tem o poder de controlar a mente das pessoas para seu benefício (reforçando a ideia da tagline promocional reproduzida no início do texto). Tudo obra de um “cientista louco”, Dr. Richard Meyerling, do original, e que é citado rapidamente nessa continuação para reforçar a conexão entre os filmes.
O desfecho em aberto, como sempre acontece nas franquias intermináveis em busca de lucros, mesmo que pequenos, possibilita uma eventual sequência, um truque comum dos produtores caso decidam a viabilidade de continuar a história. Porém, isso não aconteceu, e o bebê maldito parou nessa segunda parte.   
(Juvenatrix – 22/06/17)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ghoulies IV - Eles Estão Próximos! (Ghoulies IV, EUA, 1994)


Um pouco de magia negra, um pouco de couro preto... e muito humor negro – tagline promocional do quarto filme da franquia Ghoulies

Os ghoulies são pequenas criaturas bizarras oriundas de um universo sombrio paralelo e que acidentalmente entraram em nosso mundo. Remetendo-nos diretamente aos filmes das saudosas décadas de 80 e 90 do século passado, a ideia de criação desses pequenos demônios utilizou elementos similares de outros monstrinhos de divertidas franquias como “Gremlins” (que teve 3 filmes) ou “Critters” (com 4 filmes).
“Ghoulies” por sua vez teve 4 partes, sendo a primeira lançada em 1984 pela extinta produtora “Empire”, de Charles Band, seguida em 1988 por “Ghoulies 2” e em 1991 por “Os Ghoulies Vão Ao Colégio” (Ghoulies III: Ghoulies Go To College). Em 1994 foi lançado diretamente para o mercado de vídeo VHS o quarto episódio, que recebeu o nome nacional “Ghoulies IV – Eles Estão Próximos!” (distribuído pela “Warner” com um subtítulo totalmente desnecessário), dirigido pelo especialista em bagaceiras Jim Wynorski, dono de um currículo produtivo com mais de 100 filmes.
Nessa comédia com elementos de fantasia e horror, um ex-praticante de magia negra e agora detetive da polícia, Jonathan Graves (Peter Liapis), é o elo de ligação com o universo ficcional da franquia, sendo o mesmo personagem e ator do filme original de 1984. Ele tem em seu poder uma pedra vermelha mágica, a “joia do conhecimento”, procurada desesperadamente pela entidade maligna Fausto, que na verdade é a manifestação de seu lado negro, para poder entrar em nosso mundo.
Para alcançar seu objetivo, a criatura demoníaca utiliza os serviços da bela Alexandra (Stacie Randall), uma antiga namorada do policial que está vestindo roupas sensuais de couro preto, além de ter habilidades especiais em lutas e manuseio de armas, e que fugiu de um manicômio para roubar a pedra mágica. Ela enfrenta em seu caminho uma dupla de ghoulies trapalhões, interpretados pelos anões Tony Cox e Arturo Gil, que entraram acidentalmente em nosso mundo através da abertura de um portal dimensional. Para ajudar o policial e antigo ocultista surge também outra ex-namorada e parceira na polícia, a bela capitã Kate (Barbara Alyn Woods), e juntos eles tentam combater Alexandra e os planos maquiavélicos de seu mestre Fausto. Além de salvar a atual amante do policial, a prostituta Jeanine (Raquel Krelle), que tem a pedra mágica num colar pendurado no pescoço e por isso corre perigo de vida como vítima de um ritual satânico de sacrifício humano, e resgatar do limbo o também policial Scotty (Bobby Di Cicco), atual parceiro de Graves e que foi possuído pelas forças do além.
O roteiro de Mark Sevi é uma salada indigesta com tanta bobagem misturada que inevitavelmente contribui para o desinteresse e afastamento do espectador de qualquer tipo de entretenimento. Existem os filmes bagaceiros que divertem e tem também aquelas tranqueiras que entediam, sendo que essa quarta parte de “Ghoulies” se enquadra no segundo caso. Tem muitos momentos de comédia pastelão e não é todo mundo que aprecia isso, mesmo sendo um filme com elementos propositais de humor negro (reforçado na tagline promocional do filme, reproduzida no início desse texto). Principalmente nas cenas com os ghoulies patetas, que de bonecos com comportamentos malignos nos filmes anteriores, passaram para criaturas de boas condutas interpretadas por atores anões com máscaras extremamente toscas (eles falam, mas suas bocas praticamente não se mexem). Aliás, eles também andam tranquilamente pelas ruas de Los Angeles sem serem notados ou importunados, simulando de forma inverossímil que se escondem das pessoas, ou não despertando estranheza quando descobertos. Apenas nesse filme da franquia os ghoulies foram interpretados por atores, porque a produtora “Cinetel” não conseguiu utilizar os bonecos originais dos filmes anteriores.
Curiosamente, existem algumas cenas do filme original de 1984 apresentadas em flashback, e o desfecho de “Ghoulies IV” apresenta um gancho proposital onde as criaturas convidam o espectador para conferir a próxima aventura deles, mas o anunciado quinto filme da franquia nunca foi filmado.
(Juvenatrix – 19/06/17)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Doce Vingança 2 (I Spit on Your Grave 2, EUA, 2013)


Com direção novamente de Steven R. Monroe, do filme homônimo de 2010 (que por sua vez é uma refilmagem de “A Vingança de Jennifer”, de 1978), “Doce Vingança 2” não é uma continuação, e sim apenas a variação de história similar com outra ambientação.
Uma jovem e bela garota americana, Katie (Jemma Dallender), decide fazer uma sessão de fotos para tentar a difícil carreira de modelo, porém um dos homens do estúdio fotográfico invade seu apartamento e a estupra. Os irmãos do criminoso são chamados para ajudá-lo e levam a garota para a Bulgária. Lá, ela é novamente violentada de forma brutal, além de sofrer torturas terríveis e enterrada viva. Mas, ela sobrevive e coloca em prática um sangrento plano de vingança.
Sem novidades em relação ao primeiro filme, é apenas mais uma jogada oportunista do diretor para tentar arrecadar algum lucro com o tema batido de violência e vingança. Dessa vez a ambientação saiu de uma floresta e pequena cidade americana, indo para um cenário urbano do leste europeu. Continuamos com várias situações mal explicadas para facilitar o trabalho do roteirista, como a viagem para a Bulgária, a fuga da garota enterrada para morrer, e a sucessão de situações inverossímeis no plano de vingança centrado na dor e tortura das vítimas. A violência, sem não for igual ao filme antecessor, é até maior e mais gráfica.
Continuando a franquia, em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, que é uma continuação direta do primeiro filme, com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. O nome nacional é “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
(Juvenatrix – 09/02/14)

Doce Vingança (I Spit on Your Grave, EUA, 2010)


Doce Vingança” é uma refilmagem de um original de 1978 com o nome aqui no Brasil de “A Vingança de Jennifer”, escrito e dirigido por Meir Zarchi, e conhecido pelos títulos “Day of the Woman” ou “I Spit On Your Grave”. A nova versão tem direção de Steven R. Monroe, que enfatizou sua intenção em homenagear o filme antecessor da década de 1970 do século passado. Teve uma parte 2 lançada em 2013 pelo mesmo cineasta, porém não é uma continuação e a opção dos realizadores foi criar outra história dentro do mesmo tema. E em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, essa sim é uma continuação direta com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. Recebeu o nome nacional de “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
Uma jovem e bela escritora, Jennifer Hills (Sarah Butler), decide ir para um chalé afastado e cercado por uma floresta, para ficar isolada e poder trabalhar em seu novo livro. Porém, ao chegar à cidade próxima ao local de seu refúgio na natureza, ela chama a atenção por sua beleza e características de uma garota da cidade grande. Ela então é visitada de forma inesperada por quatro homens, que se juntam ao desonesto xerife local, que se diz religioso e temente a Deus, mas na verdade tem um caráter desprezível. A jovem escritora torna-se vítima de crueldades indescritíveis, sendo estuprada violentamente na floresta. Porém, “a vingança é um prato que se come frio”, e ela consegue sobreviver para dar o troco em seus algozes através de atrocidades ainda piores.
Filme sangrento repleto de momentos de grande tensão, principalmente a tortura física e psicológica sofrida pela protagonista, fazendo-nos torcer por sua recuperação e sucesso no plano de vingança. O ser humano consegue ser tão desprezível com atitudes de crueldade, que muitas vezes é mais insignificante e rasteiro que os insetos que esmagamos sem perceber ao caminhar. E não é nenhum spoiler revelar que, para nossa total satisfação como apreciadores do cinema de horror, os estupradores são punidos de formas terrivelmente dolorosas, apesar de sabermos que as ações meticulosas e precisas da mulher vingadora são bem improváveis quando tentamos aproximar a história de algo mais real.
(Juvenatrix – 03/02/14)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Maldição dos Brinquedos (Curse of the Puppet Master, EUA, 1998)


Charles Band nasceu em 1951 nos Estados Unidos. Roteirista, diretor e produtor, ele fez parte, junto com seu pai Albert Band, da extinta produtora “Empire Pictures”, que foi a responsável por várias preciosidades como “A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator, 1985) e “Do Além” / “Possuídos Pelo Mal” (From Beyond, 1986), ambos baseados em histórias de H. P. Lovecraft. Após o encerramento das atividades da “Empire”, ele fundou a produtora “Full Moon Entertainment” e continuou lançando suas pérolas de horror e ficção científica como a imensa franquia “Puppet Master”.
A Maldição dos Brinquedos” (Curse of the Puppet Master, 1998) é o sexto filme da franquia e foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Play Time”. Com direção de David DeCoteau, creditado como Victoria Sloan, a história é sobre o “cientista louco” Dr. Magrew (George Peck), que utiliza os conhecimentos de Andre Toulon, o famoso “mestre dos brinquedos” dos filmes anteriores, e mantém em cativeiro um grupo de bonecos vivos assassinos, apresentando-os num show bizarro como se fossem marionetes que se movimentam sozinhas misteriosamente.
Ele é obcecado em fazer experiências tentando transferir a alma das pessoas para dentro de bonecos, criando “brinquedos humanos” (daí a ideia da tagline “...A Experiência Humana”). Para isso, ele encontra o jovem Robert “Tank” Winsley (Josh Green), um rapaz tímido e sem família, que viveu num orfanato e trabalha num posto de gasolina. Ele sempre tem pesadelos e é constantemente ridicularizado por seus colegas, até ser convidado para trabalhar com o cientista depois de revelar que é um talentoso escultor de bonecos em madeira. Tank logo se apaixona pela bela filha do cientista, Jane Magrew (Emily Harrison), não imaginando os planos maquiavélicos de seu novo patrão. Enquanto isso, em paralelo o xerife Garvey (Robert Donavan) e seu assistente Wayburn (Jason-Shane Scott), estão desconfiados do trabalho sinistro do cientista e investigam o desaparecimento suspeito de seu antigo empregado.
O filme até diverte um pouco justamente pelos bonecos toscos e as cenas de mortes sangrentas, mas eles e os assassinatos somente entram em cena para valer a partir da metade da projeção. O roteiro tem muitos furos que podem ser notados sem esforço, validando o fato de que os realizadores não estão se importando muito com os espectadores e a qualidade da história. Quando Tank é apresentado para os bonecos vivos, ele não parece admirado com algo tão incomum. E o desfecho abrupto gera um inevitável desconforto, onde não esperávamos o corte brusco para os créditos finais. “A Maldição dos Brinquedos” foi filmado às pressas em apenas 8 dias e com a grande maioria das cenas dos fantoches sobrenaturais aproveitadas dos filmes anteriores, fazendo desse sexto capítulo da franquia apenas mais um produto comum e de fácil esquecimento.
Curiosamente, entre os bonecos assassinos que aparecem nesse capítulo da franquia, temos “Blade” (dublado no Brasil como “Lâmina”, que tem uma faca e um gancho no lugar das mãos) e “Six-Shooter” (“Seis Tiros”, um pistoleiro do velho oeste habilidoso com os revólveres). Além de “Pinhead” (“Cabeça de Alfinete”, que tem uma cabeça muito pequena e desproporcional ao tamanho do corpo, com sua força concentrada nas mãos enormes), “Tunneler” (“Tonelada”, que tem uma broca na cabeça e gosta de furar suas vítimas em imensos banhos de sangue), “Jester” (um comediante fantasiado como “o bobo da corte”), e “Sugismunda” (“Leech Woman”, uma mulher que tem sanguessugas na boca).     
A imensa franquia começou em 1989 com “Bonecos da Morte” (Puppetmaster) e teve mais dez filmes. Alguns foram lançados no Brasil e os títulos nacionais ruins contribuíram para uma enorme confusão e dificuldade num trabalho de catalogação. São eles: “O Mestre dos Brinquedos” (Puppet Master II, 1990), “A Volta do Mestre dos Brinquedos” (Puppet Master III: Toulon´s Revenge, 1991), “Bonecos em Guerra” (Puppet Master 4, 1993) e “Bonecos em Guerra – O Capítulo Final” (Puppet Master 5, 1994). Depois de 4 anos veio o filme analisado rapidamente nesse texto, seguido de “Retro Puppet Master” (1999), “Puppet Master: The Legacy” (2003), “Puppet Master: Axis of Evil” (2010), “Puppet Master X: Axis Rising” (2012), e “Puppet Master: Axis Termination” (2017).
 (Juvenatrix – 08/06/17)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Noiva Assassina (Praying Mantis, EUA, 1993)


Existe uma infinidade de filmes com histórias tão banais e comuns que assisti-los é um desgastante exercício de paciência. “A Noiva Assassina” (Praying Mantis, 1993) é uma produção para a televisão apenas recomendada para aqueles que estão dispostos a ver filmes ruins de suspense como simples curiosidade ou para conhecer tudo dentro do gênero, mesmo as porcarias que não divertem.
Com direção de James Keach, é um thriller básico, com história clichê e entediante, que foi lançado no Brasil em vídeo VHS pela “CIC” e lembra os tipos de filmes ruins exibidos na sessão “Supercine” da TV Globo. Uma suposta escritora, Linda Crandell (Jane Seymour), conhece um homem viúvo, Don McAndrews (Barry Bostwick), dono de uma rede de livrarias, e pai do adolescente Bobby (Chad Allen). Eles se apaixonam e decidem inicialmente morar juntos, e depois se casar, para o descontentamento da cunhada Betty (Frances Fisher), que desconfia do caráter da nova mulher.
Paralelamente, uma dupla de detetives do FBI, Johnson (Colby Chester) e Broderick (Michael MacRae), estão investigando uma série de assassinatos de homens logo após seus casamentos, e suspeitam que a autora dos crimes é sempre a mesma mulher, conhecida como “A Noiva Assassina” (do título nacional). Ou “Praying Mantis” (do título original), cuja tradução do inglês é o inseto “louva-a-deus”, que tem o hábito incomum das fêmeas matarem e devorarem os machos logo após o acasalamento. Enquanto os agentes da polícia tentam encontrar o rastro da assassina, a família de Don recebe sua nova namorada não imaginando o perigo e a ameaça mortal que se instalaria em sua casa.
O filme, carregado de clichês e situações previsíveis, não apresenta nada que já não se tenha visto antes em filmes de suspense com mulheres assassinas que demonstram perturbação, agressividade, ciúme exagerado e poder de manipulação, com um passado trágico na infância que influenciaria em sua personalidade doentia. Enganando todos a sua volta com falsas impressões de educação e bom caráter, e eliminando as pessoas inocentes que tiveram o infortúnio de cruzarem seu caminho, atrapalhando seus planos de vingança pessoal contra os homens. Dispensável.
Curiosamente, os atores Jane Seymour, Barry Bostwick e Frances Fisher são agora veteranos com extensas filmografias e carreiras bem sucedidas no cinema.
(Juvenatrix – 04/06/17)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Filha de Sarah (Sarah´s Child, EUA, 1994)


Entre 1996 e 1997 foi exibida na TV Bandeirantes a lendária sessão de cinema de horror “Cine Trash”, apresentada por “Zé do Caixão”. Entre as dezenas de filmes, “A Filha de Sarah” (Sarah´s Child, 1994), com direção de Ron Beckstrom, é um thriller sonolento que conta a história de uma mulher infértil e obcecada para ser mãe. Também foi lançado em vídeo VHS por aqui pela “Company”.
Sarah LaMere (Mary Parker Williams) é casada com Michael (Michael Berger) e eles decidem se mudar de uma cidade grande para uma pequena, morando de aluguel numa bela casa de arquitetura antiga, de propriedade da Sra. Margareth Franklin (Ruth Hale). Sarah é pintora de aquarelas e seu marido é um agente de seguros de carros, que abre um escritório na cidade representando uma grande empresa. O casal vive bem e é relativamente feliz, porém Sarah deseja ter filhos para aumentar a família e uma vez não tendo sucesso em seus planos, fica desesperada ao descobrir que sofre de infertilidade.
Seu relacionamento com o marido começa a se desgastar pela dificuldade em aceitar a impossibilidade de gerar filhos e as coisas complicam ainda mais depois que surge entre eles uma misteriosa criança chamada Melissa (Meagen Addie), que tem um comportamento estranho, não fala, não se sabe de onde veio e freqüenta a casa conturbando o ambiente, principalmente depois da ocorrência de acidentes mal explicados com o cachorro de estimação e com a Sra. Franklin. Sarah foi educada de forma rígida e religiosa aprendendo que a missão da mulher é procriar, e sua condição de infertilidade interfere em sua percepção da realidade mergulhando num pesadelo de insanidade, mesmo com as tentativas de ajuda do marido e apoio médico do psiquiatra Dr. Perry (Bryce Chamberlain).
“A Filha de Sarah” tem uma hora e meia de duração que se arrasta num ritmo lento e história pouco inspirada que não consegue manter o interesse do espectador. Os elementos de horror são muito sutis, representados pela figura misteriosa da criança que surge para influenciar no clima de tensão crescente entre o casal sem filhos. As poucas coisas que poderiam gerar algum interesse, na exploração de um mistério, demoram tanto para acontecer e ainda mais com um resultado tão trivial, que qualquer tentativa de apresentar elementos supostamente sobrenaturais perde seu efeito. E não poderíamos deixar de citar uma tentativa de humor forçado totalmente fora de contexto, envolvendo um enfermeiro patético que dança e faz palhaçadas no hospital onde Sarah fica internada. A cena tem um resultado estranho que não se encaixa na história.
(Juvenatrix –29/05/17)

sábado, 27 de maio de 2017

Kurt Vonnegut, Jr. (1922-2007)

Escritor americano faleceu aos 84 anos no dia 10 de abril de 2007 em conseqüência de lesões cerebrais provocadas por uma queda em sua residência, semanas antes. É um dos mais prestigiados e controversos autores de sua geração, influente em temas como sátira política e comportamental, boa dose de humor negro e, claro, ficção científica. Dizia que não pertencia ao gênero enquanto tal usava-o como uma ferramenta metafórica para criticar os homens e a sociedade de sua época, mas também entre os especialistas do gênero, Vonnegut é celebrado por sua inteligência e descompromisso com qualquer padrão, uma alma iconoclasta, antes de qualquer outra coisa. Nascido em Indianápolis (Indiana) em 1922, estudou química na Universidade de Cornell, antes de se alistar no Exército para a Segunda Guerra Mundial. Foi feito prisioneiro dos alemães e um dos poucos sobreviventes do bombardeio de Dresden, o pior realizado na Europa, em 1945. 
Depois da guerra trabalhou como jornalista em vários lugares até começar a escrever e publicar. Seu primeiro romance é Player piano (Revolução no futuro), de 1951. Logo depois, vieram Sirens of Titan (As sereias de Titã), de 1959, seu primeiro livro publicado no Brasil, pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1966. Talvez seu livro mais conhecido seja Slaughterhouse-Five, or the children’s cruzade: A duty-dance with death (Matadouro 5 ou a cruzada das crianças), de 1969, em que mistura viagens no tempo com alienígenas do futuro do planeta Tralfamadore e suas próprias experiências pessoais de sobrevivente do bombardeio de Dresden. Ganhou uma boa adaptação para o cinema em 1971, sob direção de George Roy Hill. Outros livros importantes incluem Cat’s cradle (Cama de gato), de 1963, God-bless you, Mr. Rosewater (1965) – aqui apresentando um de seus alter egos, Eliot Rosewater, retomado em livros posteriores. Outros incluem Billy Pilgrim – o sobrevivente de Dresden de Matadouro 5 – e  Kilgore Trout, um mal-sucedido autor justamente de, ficção científica neste romance e também em Breakfast of champions, or goodbye, blue monday! (Almoço dos campeões), de 1973.

Outros livros importantes são Galapagos (Galápagos), de 1985, uma fantasia de humor negro sobre os sobreviventes de um holocausto nuclear que vivem na tal ilha do título; Hocus Pocus, or what’s the hurry,  Sam?(Hocus Pocus), de 1990, uma ácida especulação sobre as contradições sociais que poderiam levar à auto-destruição da civilização. Vonnegut era, à maneira de um Mark Twin, um sujeito existencialista, no sentido de partir das dúvidas básicas da vida, tais como “Por que estamos neste mundo?” ou “Há mesmo alguma figura presidindo tudo isso?”. Era, assim, um pessimista contumaz e usava a mordacidade cômica para disfarçá-la ou melhor, torná-la mais explícita e suportável. Muito polêmico, foi guru dos hippies e da contra-cultura, o que lhe custou reações truculentas, como quando seus livros foram queimados por grupos conservadores no início dos anos 1970. Apesar do reconhecimento sofreu de depressão a maior parte da vida e tentou o suicídio – assim como sua mãe que se matou –, em 1984, tomando pílulas e álcool.
Tem um público fiel no Brasil, para além das fronteiras da ficção científica, pois dos seus 14 romances escritos sete estão disponíveis no mercado, incluindo o publicado em 2007, pela editora Record, Deus, o abençoe, Dr. Kervokian. Um nome importante, talvez mais da cultura ocidental do pós-guerra, do que propriamente da ficção científica, mas que mesmo nela, a ilustrou com sua irreverência e inteligência acima da média.

– Marcello Simão Branco

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007)

Promotor e Corregedor do Ministério Público, professor universitário, jornalista, romancista e ensaísta, Rubens Teixeira Scavone faleceu no dia 17 de agosto de 2007, aos 82 anos.
Nascido na cidade de Itapira, interior de São Paulo, em 8 de julho de 1925, filho dos escritores Hermelino Scavone e Maria de Lourdes Teixeira, o pequeno Rubens teve acesso a uma das mais completas bibliotecas do Brasil em sua própria casa. Mesmo depois da separação de seus pais mãe, continuou a conviver num meio erudito porque seu padastro, José Geraldo Vieira, também era um escritor importante.
Scavone graduou-se em 1948 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e seguiu a carreira do Direito, como Promotor de Justiça, chegando a ser Corregedor Geral do Ministério Público.
Paralelamente, desenvolveu uma sólida carreira literária, com uma das mais expressivas bibliografias da literatura fantástica brasileira. Estreou em 1958 com o romance O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros), que publicou sob o pseudônimo de Senbur T. Enovacs, um anagrama de seu próprio nome. Em 1961, publicou duas coletâneas de contos, Diálogo dos Mundos (GRD) e Degrau para as estrelas (Martins), além de participar da Antologia brasileira de ficção científica (GRD), um período literariamente muito ativo.
Entretanto, Scavone não se limitou à literatura fantástica e alcançou muito sucesso também redigindo ensaios e romances mainstream. Em 1973 foi agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro por Clube de campo (Record), um denso romance de mistério que se passa exatamente no dia em que o homem pousou na Lua.
Apesar de todo o sucesso, Scavone não deixou de participar das atividades dos fãs de ficção científica no Brasil, com os quais sentia grande identificação.

Sempre gentil e atencioso, esteve presente no histórico Simpósio de Ficção Científica do Rio de Janeiro, em 1969. Também foi convidado para formar a mesa de debates da 1ª Mostra de Ficção Científica do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), em 1987 no SESC Pompéia, em São Paulo, foi convidado da II InteriorCon 1991, em Sumaré/SP, e da I HiperCon 1993, em Santo André/SP, mesmo ano em que publicou a importante novela O 31º peregrino (Estação Liberdade), resenhada adiante.
Em 1988 foi eleito para a cadeira nº18 da Academia Paulista de Letras, que presidiu por dois mandatos.
Depois disso, debilitado por problemas de saúde, não apareceu mais entre os fãs. Mesmo assim, participou das antologias Estranhos contatos (Caioá, 1998), Histórias de ficção científica (Ática, 2005), Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) e Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007), estas últimas através da representação de seu filho, o fotógrafo  Marcio Scavone.
Rubens T. Scavone deixa um importante legado, com um acervo de contos, novelas e romances de altíssima qualidade, que merece ser republicado para conhecimento das novas gerações de leitores. Sua contribuição para a identidade da ficção fantástica brasileira é importantíssima e deve ser sempre  referenciada.

Bibliografia:
= O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros, 1958) – Romance.
= Degrau para as estrelas (Martins, 1961) – Coletânea.
= Diálogo dos mundos (GRD, 1961) – Coletânea.
= Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961) – Antologia.
= Ensaios norte-americanos (Revista dos Tribunais, 1963) – Ensaio.
= Além do tempo e do espaço (EDART, 1965) – Antologia.
= O lírio e a antípoda (Revista dos Tribunais, 1965) – Romance.
= Passagem para Júpiter (Mundo Musical, 1971) – Coletânea.
= Clube de campo (Record, 1973) – Romance.
= A noite dos três degraus (Melhoramentos, 1976) – Romance .
= Morte, no palco (Clube do Livros, 1979) – Coletânea.
= Faukner & cia (Soma, 1984) – Ensaio.
= O Projeto Dragão (Scipione, 1988) – Coletânea.
= Templários, Frankenstein, Buracos Negros e outros temas (Hemus, 1991) – Ensaio
= Sete faces da ficção científica (Moderna, 1992) – Antologia.
= Sete faces da ficção espacial (Moderna, 1992) – Antologia.
= O 31º peregrino (Estação Liberdade, 1993) – Novela.
= Estranhos contatos (Caioá, 1998) – Antologia.
= Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) – Antologia.
= Histórias de ficção científica (Ática, 2005) – Antologia.
= Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007) – Antologia.
Cesar Silva

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Despertar do Demônio (Bay Cove, EUA, 1987)


O mercado brasileiro de vídeo VHS foi bastante movimentado entre os anos 80 e 90 do século passado, com muitos lançamentos de filmes de horror. “Despertar do Demônio” (Bay Cove) é de 1987 e foi lançado por aqui pela “Globo Vídeo”, sendo uma produção especialmente para a televisão dirigida por Carl Schenkel, e com a curiosidade da participação no elenco de um jovem Woody Harrelson, em início de carreira. Dentre uma infinidade de atores e atrizes que aparecem em centenas de filmes de todos os estilos e para todos os lados, apenas alguns poucos conseguem sucesso efetivo na carreira. Harrelson é um deles, sempre atuante e participando de grandes projetos como a franquia “Jogos Vorazes”.  
Um jovem casal sem filhos, Jerry Lebon (Tim Matheson) e a esposa Linda (Pamela Sue Martin), decide se mudar e sair do aluguel, comprando uma casa afastada da cidade, localizada num pequeno vilarejo de uma ilha pouco habitada. O lugar é chamado de “Bay Cove” (do título original) e a comunidade local tem mais de 300 anos de história. Eles primeiramente são recebidos com entusiasmo e cordialidade pelos novos vizinhos, como a idosa Beatrice Gower (Barbara Billingsley), antiga proprietária da casa vendida para eles, e pelos casais Josh (Jeff Conaway) e Debbi McGwin (Susan Ruttan), e os misteriosos Nicholas (James Sikking) e Matty Kline (Inga Swanson).
Porém, uma série de acontecimentos bizarros e sinistros transforma seus novos vizinhos em pessoas extremamente estranhas. Como a ocorrência de acidentes misteriosos e trágicos envolvendo um amigo de Linda, Slater (Woody Harrelson), que veio à ilha para visitá-la, e também o cachorro de estimação da moça, passando pelo comportamento nada infantil das poucas crianças do lugar, e pelos avisos de alerta para o perigo de um velho recluso numa cadeira sempre observando os movimentos de uma janela num sótão. Além de um cântico assustador ecoando pela ilha e a descoberta de uma caverna escondendo um ambiente preparado para a realização de cultos demoníacos, com um enorme pentagrama no chão e iluminação por tochas de fogo.   
O nome nacional “Despertar do Demônio” é oportunista e já entrega a temática do roteiro com uma conspiração satânica. Uma vez sendo uma produção para a televisão, quase não há violência e sangue, e o foco está na construção de uma atmosfera de suspense e mistério que lembra situação similar do clássico “O Bebê de Rosemary” (1968, de Roman Polanski). Apesar dos velhos clichês de filmes com seitas demoníacas e covil de feiticeiros, e da presença inevitável de previsibilidade nos eventos, temos aqui uma história que ainda consegue envolver o espectador com um clima de tensão crescente. Que ocorre na medida em que Linda desconfia do comportamento estranho dos habitantes da ilha, e decide investigar a história sinistra do lugar, descobrindo aos poucos a obscura verdade e reais intenções de seus moradores envolvidos com bruxaria.
“Se um mortal vir o local, deve ser sacrificado na primeira noite de lua cheia. Se o sacrifício não ocorrer à meia-noite, então qualquer pacto com Satanás será destruído.
(Juvenatrix –22/05/17)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Complô contra a América

Complô contra a América (The plot against America), Philip Roth. 440 páginas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015. Traduzido originalmente no Brasil em 2005, pela mesma editora.

A ficção especulativa, por motivos econômicos, especializou-se em uma miríade de gêneros e subgêneros devidamente esquematizados. Autores especializados em cada um desses subgêneros exploram cada uma de suas dobras em busca de seus limites sem perder os apelos comerciais que os editores exigem. Essa prática nos trouxe uma série de bons trabalhos criativos e perturbadores mas, por mais que se tente, sempre há uma fronteira que tem que ser respeitada, um protocolo que ali está para estabelecer a identidade da obra e seu público alvo. Eventualmente contudo, ocorre de um autor importante, mas não especializado, acidentalmente ou não, adentrar os domínios de um gênero como um touro enfurecido e, sem respeitar nenhum desses protocolos, ali instalar uma obra de tal forma autoral que a crítica tem dificuldade de classificá-lo. Há diversos exemplos dessa ordem, que causam intermináveis polêmicas entre os fãs, uns denunciam a invasão não autorizada, outros festejam que alguém importante finalmente tenha enxergado valor naquilo que tanto gostam, tudo isso enquanto o crítica mainstream destila seus preconceitos.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
Cesar Silva